Fotografia Desespero – Cronica – FotoBemFeita

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A Noiva está pálida e suada, os lenços de papel são insuficientes para conter as lágrimas, que desce até o bordado na região do busto. Ao som da marcha nupcial, da porta que se abriu, até o altar, as orquídeas da decoração fazem uma composição clássica  com o  trêmulo buquê.

O turbilhão de emoções poderia ser a única causa da insegurança da noiva, em que junto com o seu noivo, se preparou para esse momento, há 400 dias; Mas não é, o motivo da ansiedade da “dona da noite” foi causado por que o fotógrafo não honrou seu compromisso, e se esqueceu de comparecer à igreja!

Esse é o replay, que tenho todas as noites que antecedem as cerimônias de casamento, pulo da cama  e bato o joelho na cômoda, enquanto ligo o computador, vou ao banheiro, resolver o problema do intestino, que logo deu sinal. Confiro TODOS os dados do evento, como se já não teria feito umas 20 ou 30 vezes, mas graças à Deus, foi só um “sonho” e está tudo certo! Dormir novamente nem em pensamento.

Quando o dia clareou, as câmeras já estão com as baterias lotadas, na dúvida da longa madrugada elas receberam uma “carga extra”.

Perto das 17 horas, partimos para os clicks dos bastidores, logo percebo o resultado de uma noite mal dormida, a dor de cabeça. Gente dando aquele palpite na vida da colega, comprova que já estou no tumulto do salão. Como um Oásis no deserto, surge a porta que me separa da Noiva. Meus pés já sentiram o ar-condicionado pelo vão da porta, paro, respiro fundo, coloco meu melhor sorriso no rosto e: Boa tarde, hoje é o seu DIA!!!

O maquiador, dá dois beijinhos e evita encostar no rosto, e diz: Depois manda as fotos pra mim hein fofa! Pensei: Nossa preciso emagrecer, não como um docinho na festa.

Como um F 5 da força aérea, decolo com destino à cerimônia. No hall de entrada passei um scanner e faço as fotos na memória, pra executá-las nos intervalos, em que as tias pedem as fotos tradicionais.

O parceiro me cutuca , é o noivo, abotoando e desabotoando inúmeras vezes o terno, tentando disfarçar o nervosismo.

Mais um teste de D.I. (desarranjo intestinal), um a um os padrinhos tentam cruzar o tapete, como se fossem quenianos no anseio da vitória da São Silvestre. Ui, caiu o arranjo que a floricultura posicionou de forma que eles entrassem em fila indiana.

Pernas pra que te quero, a noiva chegou! E pelo vão da janela do Gordini,  já viu que tem algo errado, já comunicaram que tem padrinho atrasado.

Bem nessa hora chega uma colega: – Moça tira uma foto minha e da noiva, com minha “máquina”. Penso responder 3 coisas: Primeira: tirar foto? E colocar onde? Não é tirar, é fazer! Segundo: Máquina é de lavar, o nome disso é CÂMERA, pelo menos a minha! E por fim, é o noivo que deve ser o primeiro a ver a noiva, vai pra dentro e me deixa trabalhar “fia”!
Mas não falei nada disso, ah vamos lá é só apertar um botão!

É foto de frente, foto de traz, põe a câmera no chão, levanta os braços, flexiona os joelhos, projeta o tronco pra frente, estica o pescoço só mais um pouquinho… Ih travou! Estou começando acreditar que o maquiador tinha razão.

Mais teste de D.I.: as crianças irão entrar, ou não?! Vai dar chilique, ou não?! Agüenta firme intestino, você é um campeão!

Nove horas, e os convidados já estão reclamando que os noivos não chegam da sessão de fotos externa.
Torcendo pra não chegar uma cartinha daqui uns dias em casa, o parceiro estaciona o carro na vaga proibida mesmo, porque tem que clicar os noivos sendo ovacionados!

Enfim a festa, um breve revezamento com o parceiro rumo ao banheiro.

A mente ouve violinos, ao registrar os detalhes do bolo e doces, mas os ouvidos logo são lembrados da realidade, quando alguém me cutuca e quase derruba a câmera no chão, pra pedir uma foto do filho que vai sair no jornal.
Uma coisa eu aprendi, é feio clicar as pessoas comendo, e depois de longas 5 horas, meus batimentos cardíacos desaceleram, quando o povo todo é servido!

Pela roupa preta, acho que não fomos notados pelos os garçons, então vamos tomar água do banheiro mesmo . Minhas pernas não estavam mais me obedecendo, mesmo assim, sai babando na camisa, porque tinha alguém nos procurando.
É o pai da noiva, oferecendo um prato de salgados, que há 6 horas sem comer, ele tinha a linda aparência, do meu prato preferido, nhoque!

Parecia câmera lenta, quando coloquei a primeira bolinha de queijo na boca, o cunhado me  belisca na barriga e diz: Mas vocês vieram aqui pra trabalhar, e não pra comer! Como  eu gostaria de acreditar que fosse uma piada, ao ver sorriso na sua face, como gostaria.

Repeti comigo, foi o maquiador que mandou ele dizer isso, só pode! Deixa, deixa, eu não queria comer mesmo. Larguei o prato e fingi clicar alguma coisa, matutando que quando eu saísse da festa iria comer 3 Big Mac e 5 sundaes de chocolate!

Com nível de stress e ansiedade maior que o pico do Jaraguá, aliado com fome, frio, dores nos pés, passando pelo ciático, ombros, pescoço e punho, tímpano bombando, olhos, cabelos, e pulmão afetados pela fumaça do cigarro alheio, parei e pensei: Qual o motivo pelo qual eu suporto isso?

Constatei que as únicas partes do meu corpo não afetadas, foram o coração e a memória; Eles me fazem lembrar que, ao registrar os melhores momentos, da vida dos meus clientes, e estar presente na realização do seu sonho, é motivo porque eu faço isso!

E depois de 10 horas desde que sai de casa, com satisfação voltei pra ela feliz, na expectativa de dormir pelo menos 6 horas!

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